Em um cenário internacional pressionado por riscos no Oriente Médio, avanço da produção agrícola brasileira amplia disponibilidade para energia renovável
A nova onda de tensão no Oriente Médio devolveu ao mercado internacional uma preocupação recorrente: a vulnerabilidade estrutural da oferta global de energia. Os episódios recentes envolvendo rotas marítimas próximas ao Estreito de Ormuz, corredor por onde circula aproximadamente 20% do petróleo mundial, reacenderam alertas sobre abastecimento, frete, inflação energética e estabilidade logística.
Para economias dependentes de combustíveis fósseis, qualquer sinal de instabilidade na região rapidamente se traduz em custo. Para o Brasil, no entanto, esse ambiente expõe uma vantagem construída ao longo de décadas: a capacidade de transformar produção agrícola em energia renovável em escala industrial.
Ao mesmo tempo em que o mercado internacional monitora o petróleo, o campo brasileiro avança em ritmo consistente. Dados atualizados da Companhia Nacional de Abastecimento mostram que a colheita do milho da primeira safra chega a 29,5% e o milho da segunda safra avança com 75,9% da área semeada. A soja, principal ativo agrícola nacional, já ultrapassa metade da área colhida, com produtividade acima do que foi inicialmente projetado em polos como o de Mato Grosso.
“Num ambiente em que o mundo volta a perceber o quanto ainda depende do petróleo, o Brasil apresenta uma combinação difícil de replicar: safra em grande escala, base energética renovável consolidada e capacidade industrial para agregar valor à própria cadeia”, afirma Daniel Barbosa (foto), CEO da FEX Agro, rede de revendas em Mato Grosso.
Segundo ele, o avanço da colheita não se limita ao volume agrícola, mas também à expansão dos ativos energéticos. “O país colhe grãos, mas, ao mesmo tempo, amplia a disponibilidade de matéria-prima para etanol, biodiesel, biometano e novas rotas energéticas — nem outro país no mundo tem um programa de biocombustíveis tão adiantado como o do Brasil. Isso nos traz maior resiliência diante de choques externos.”
A avaliação ganha ainda mais relevância diante das diretrizes estabelecidas no Mapa do Caminho para a Redução Gradativa da Dependência dos Combustíveis Fósseis, documento entregue ao embaixador e presidente da COP 30, André Corrêa do Lago, que propõe três fases de transição energética até 2040. O texto foi apresentado por lideranças e representantes do setor de biocombustíveis em evento realizado na capital paulista. O texto propõe acelerar o uso de etanol, biodiesel, combustível sustentável de aviação, biometano e hidrogênio de baixa emissão de carbono, além de prever um fundo de transição energética financiado com receitas de petróleo e gás natural.
No caso brasileiro, o etanol desempenha um papel central. Além da cana-de-açúcar, cresce o modelo industrial baseado em milho, no qual a produção de combustível ocorre junto à geração de DDG, insumo proteico de alto valor utilizado na nutrição animal. “O milho sintetiza bem esse novo entendimento sobre as energias renováveis: da mesma matéria-prima saem energia, proteína e valor industrial. É uma cadeia que responde simultaneamente a três demandas globais — energia, alimento e eficiência produtiva”, diz Barbosa.
O documento também amplia o papel do biodiesel no transporte pesado e do biometano no aproveitamento de resíduos agropecuários, especialmente em regiões produtoras. Na avaliação da Fex Agro, a atual conjuntura internacional torna esse modelo ainda mais estratégico. “Quando petróleo, frete e segurança logística voltam ao centro do debate, países capazes de produzir energia a partir do próprio campo passam a ter outra relevância econômica. O Brasil já dispõe dessa arquitetura e ainda tem espaço para expandi-la”, conclui.
Barbosa também destaca a importância de ampliar a comunicação sobre a sustentabilidade da agricultura brasileira, ressaltando o rigor da legislação ambiental e o papel do produtor na preservação. “O produtor brasileiro faz um trabalho de preservação único no mundo — nenhum outro país faz o que o Brasil faz, e na escala em que nós fazemos! É muito triste o fato deste trabalho fenomenal não ser reconhecido globalmente. Muitas vezes, nem no próprio Brasil, este trabalho é reconhecido. Divulgar a contribuição do produtor rural brasileiro para a preservação dos ecossistemas é uma pauta essencial — é preciso levar ao mundo a mensagem de que a agricultura tropical brasileira, além de ser o resultado de ciência, adaptação e muito esforço, também é a que mais preserva o meio ambiente. Isso precisa ser divulgado aos quatro cantos do mundo”, finaliza.
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