Superquarta expõe limite do crédito subsidiado e reforça novas estruturas de financiamento no agro

Por Henrique Schardong, diretor comercial da Plantae Agrocrédito

 

A chamada “superquarta” desta semana consolida um cenário que o produtor rural brasileiro já começa a sentir no dia a dia: o custo do dinheiro seguirá elevado por mais tempo. De um lado, o Federal Reserve avança rumo à transição após o fim do mandato de Jerome Powell, mantendo os juros em patamares ainda restritivos diante de uma inflação global persistente. Do outro, o Banco Central do Brasil conduz sua política monetária sob pressão inflacionária proveniente, sobretudo, de combustíveis e alimentos, em um ambiente agravado pela guerra no Oriente Médio.

A expectativa de manutenção dos juros americanos entre 3,50% e 3,75%, combinada com um corte marginal da Taxa Selic no Brasil, na ordem de 0,25 ponto percentual, a partir dos atuais 14,75% ao ano, reforça um diagnóstico que começa a ganhar consenso: a queda dos juros virá, mas de forma mais lenta e gradual do que o mercado projetava meses atrás.

Para o agronegócio, isso muda tudo. A leitura que se consolida no campo é a de que o crédito barato não tem data para voltar. Com o petróleo acima de 90 dólares por barril e os efeitos da geopolítica atingindo diretamente insumos estratégicos, como fertilizantes, o espaço para uma queda mais acelerada da inflação e, consequentemente, dos juros se reduz.

Nesse contexto, o modelo tradicional de financiamento do agro passa a ser questionado. O Plano Safra continua sendo o principal instrumento de crédito rural no país, mas há uma distorção pouco discutida fora do setor. Embora os números anunciados ultrapassem R$ 500 bilhões, apenas cerca de um terço desse volume conta, de fato, com equalização de juros. Os outros dois terços são captados no mercado e seguem a dinâmica da Selic.

Na prática, isso significa que o produtor que busca crédito de custeio encontra taxas em torno de 14% ao ano, podendo ultrapassar 20% ao considerar custos adicionais, como seguro, análise e estruturação. O número divulgado impressiona, mas não reflete integralmente o custo real do dinheiro que chega ao campo.
Ao mesmo tempo, a demanda por crédito já supera com folga a capacidade do sistema tradicional. O volume necessário para financiar o agro brasileiro gira em torno de R$ 1,4 trilhão, enquanto o crédito subsidiado cobre apenas uma parte disso — e ainda é liberado gradualmente, o que acelera o esgotamento das linhas mais procuradas, especialmente as de custeio.

Esse descompasso tem provocado uma mudança silenciosa, mas estrutural. Diante de margens mais apertadas, custos elevados e crédito mais caro, o produtor rural passa a priorizar a liquidez. Investimentos em máquinas e expansão ficam em segundo plano, enquanto cresce a necessidade de financiar a operação corrente — como a compra de insumos, o diesel e o pagamento da equipe.

É nesse ponto que o mercado privado ganha protagonismo. O financiamento do agro fora do sistema tradicional já soma cerca de R$ 1,4 trilhão, com destaque para instrumentos como a CPR, que cresceu mais de 70% nos últimos dois anos. Esse movimento reflete uma mudança de mentalidade: o produtor deixa de depender exclusivamente do crédito subsidiado e passa a acessar estruturas baseadas no mercado de capitais.

Mais do que buscar a menor taxa, o foco passa a ser a estrutura da operação. A qualidade da garantia ganha relevância. Em muitos casos, as garantias tradicionais — como a terra e o maquinário — já estão comprometidas. Com isso, crescem as operações baseadas em recebíveis, nas quais a própria produção futura serve de lastro. Contratos de venda antecipada com agroindústrias passam a ser utilizados como base para financiamento, permitindo ao produtor acessar recursos sem necessidade de novas garantias reais.

Dentro dessa lógica, começam a ganhar espaço modelos estruturados que buscam alinhar crédito ao fluxo do campo. É nesse contexto que iniciativas como o ConsinAgro, do Plantae Agrocrédito, se inserem. A proposta está alinhada a essa transformação do mercado: oferecer soluções de crédito estruturadas a partir da realidade do produtor, com foco em fluxo de caixa, previsibilidade e no uso de recebíveis como base de garantia, em vez de depender exclusivamente de ativos tradicionais.

Não se trata de substituir o Plano Safra, mas de complementar um sistema que já não consegue, sozinho, atender à dimensão e à complexidade do agro brasileiro.
A superquarta, portanto, não é apenas uma decisão de juros. Ela reforça um ambiente em que o custo do dinheiro permanece elevado, a inflação segue pressionada e o crédito exige cada vez mais estratégia.

Para o produtor, a mudança é clara. Esperar pela queda dos juros pode não ser mais uma estratégia viável no curto prazo. A competitividade passa a depender da capacidade de acessar diferentes fontes de financiamento, de estruturar operações de forma mais eficiente e de alinhar o crédito ao ciclo produtivo.
O agro brasileiro continua sendo uma potência produtiva. Mas, neste novo cenário, será também cada vez mais uma potência financeira.

O Plantae Agrocrédito está no mercado há mais de 22 anos e sempre atuou na área de fomento comercial, por meio da antecipação de recebíveis por meio da aquisição de títulos de crédito. Em janeiro de 2021, recebeu autorização do Banco Central para operar como instituição financeira. Com sede em Presidente Prudente/SP, atua em vários segmentos do agro e tem parcerias com grandes empresas do ramo de pecuária, como MFG, Marfrig e Minerva, setor sucroenergético, com Tereos, Cofco, Adecoagro, Cocal, Grupo CMAA, CMNP, Usina Jacarezinho, Energética Santa Helena, Viterra Bioenergia, ATVOS, setor de citrus, com a Citrosuco, além do segmento de grãos com COFCO, ADM, Cargill, entre outras.

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