Gestão não é software. É o que você faz antes de ligar o computador
Por Cristiano Mendonça de Novaes, produtor
O agronegócio brasileiro nunca teve tanta tecnologia disponível. Sensores, drones, plataformas de rastreabilidade, inteligência artificial aplicada ao manejo. A oferta cresce a cada safra e o produtor que não adota essas novidades corre o risco de parecer atrasado.
Mas há uma armadilha nessa corrida.
Existem fazendas em Minas Gerais que investiram pesado em monitoramento digital e continuam perdendo bezerros por problemas que não precisam de algoritmo para serem resolvidos. Curral mal higienizado, água de baixa qualidade oferecida ao rebanho ou falha no protocolo sanitário nas primeiras semanas de vida do animal. São gargalos antigos, baratos de corrigir, e nenhum software vai resolver se o manejo diário estiver errado.
Na pecuária de cria com Nelore o resultado aparece devagar. O bezerro desmamado, em boas condições, é o produto. Qualquer descuido no período crítico, como no parto, na amamentação ou na adaptação, compromete o ganho de peso, eleva a mortalidade e corrói a margem.
No Brasil, a mortalidade de bezerros, do nascimento ao desmame, pode chegar a 10%, segundo pesquisa da UNESP. A maioria dessas mortes ocorre nos primeiros cinco dias de vida e tem causa identificável: falha no manejo.
A Embrapa Gado de Corte sinalizou que 2026 será um ano de pressão, com juros elevados e crédito mais seletivo. O produtor precisará atuar cada vez mais como gestor financeiro da atividade. Para quem trabalha com cria, o dado é ainda mais concreto: hoje são necessárias cerca de 9 arrobas de boi gordo para comprar um bezerro. E o mercado internacional reforça essa pressão: rastreabilidade e bem-estar animal deixaram de ser diferenciais e passaram a funcionar como critérios de acesso a mercados e linhas de financiamento.
Tecnologia importa. Mas ela funciona com base. Se a base estiver rachada — manejo sanitário inconsistente, pastagem degradada, organização operacional precária —, o investimento em inovação vira um custo sem retorno.
O que separa uma operação lucrativa de outra que produz muito e sobra pouco raramente está no equipamento mais novo. Está em quem acorda cedo, olha o rebanho com atenção e resolve o problema antes que ele apareça no balanço.
–









