O Brasil pode transformar uma safra recorde em liderança energética global?
Por Daniel Barbosa, CEO da FEX Agro
As tensões recorrentes no Estreito de Ormuz voltaram a expor uma vulnerabilidade estrutural da economia mundial: a concentração de uma parcela significativa do fluxo energético global em um único corredor marítimo. Por essa rota passam cerca de 20% do petróleo consumido no planeta e volumes expressivos de gás natural liquefeito, o que torna qualquer instabilidade capaz de reverberar rapidamente nos preços, na logística, na inflação e no crescimento econômico.
Em um ambiente de maior incerteza geopolítica, países capazes de oferecer energia em escala, previsibilidade e menor exposição a combustíveis fósseis passam a ocupar uma posição estratégica. Nesse cenário, o Brasil reúne características raras: liderança agrícola, matriz energética renovável e capacidade crescente de produção de biocombustíveis.
Os números mais recentes da Companhia Nacional de Abastecimento reforçam essa realidade. A safra brasileira de grãos de 2025/26 está estimada em 358 milhões de toneladas, um novo recorde histórico. A soja, principal commodity agrícola do país, deve alcançar aproximadamente 180 milhões de toneladas, consolidando o Brasil como maior produtor global.
Além dos números da produção, o setor acompanha com expectativa o anúncio do Plano Safra 2025/26, previsto para 1º de julho. Em um contexto de juros ainda elevados e de maior seletividade na concessão de crédito, produtores, cooperativas e entidades representativas aguardam definições sobre o volume de recursos disponíveis, as taxas de financiamento, os limites de enquadramento, as linhas de investimento e os mecanismos de apoio à modernização tecnológica e à sustentabilidade da produção. O desenho do programa será determinante para a capacidade de financiamento da próxima temporada e para a manutenção da competitividade do agronegócio brasileiro.
Outro tema central nas discussões é o seguro rural. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) tem defendido o fortalecimento da política de gestão de riscos, com ampliação dos recursos destinados ao Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), maior previsibilidade orçamentária e expansão da cobertura para um número maior de produtores e culturas. A entidade também tem ressaltado a necessidade de integrar instrumentos como o seguro rural, o crédito e as políticas de renda, reduzindo a exposição do produtor a eventos climáticos extremos, que se tornaram mais frequentes nos últimos anos. Em um cenário de crescente volatilidade climática, a ampliação da proteção securitária é vista pelo setor como condição essencial para garantir a estabilidade produtiva e a segurança dos investimentos.
A relevância desses números vai além do agronegócio. A expansão da produção agrícola fortalece cadeias ligadas ao biodiesel, ao etanol, ao biometano e ao combustível sustentável de aviação (SAF), setores que ganham importância à medida que governos e empresas buscam reduzir as emissões e diversificar as fontes de energia.
Ao mesmo tempo, o desempenho recorde da produção convive com um cenário econômico mais desafiador para o produtor rural. O custo do capital permanece elevado, mesmo com a expectativa de flexibilização monetária nos próximos trimestres. Fertilizantes, defensivos, logística e despesas financeiras seguem pressionando as margens em diversas regiões produtoras.
O mercado internacional também apresenta uma dinâmica diferente da observada nos ciclos recentes. A recomposição dos estoques globais e a expansão da oferta em importantes países exportadores reduziram parte do suporte aos preços agrícolas. Em consequência, a rentabilidade dependerá cada vez mais da eficiência operacional, da gestão de risco e da estratégia comercial.
Na soja, permanece um fator determinante: a concentração da demanda. A China continua sendo o principal destino das exportações brasileiras, o que mantém o mercado sensível a decisões de compra, questões diplomáticas e movimentos geopolíticos. Em um ambiente global mais fragmentado, previsibilidade passa a ter valor semelhante ao da produtividade.
O milho também merece atenção especial nessa equação. A Conab projeta uma produção próxima de 132 milhões de toneladas na safra 2025/26, mantendo o Brasil entre os maiores produtores e exportadores globais do cereal. Além de sua relevância para a segurança alimentar e para as cadeias de proteína animal, o milho ganha protagonismo crescente na matriz energética brasileira com o avanço das usinas de etanol de cereais, especialmente no Centro-Oeste. O movimento amplia a agregação de valor no país, fortalece a interiorização da indústria de biocombustíveis e reduz a dependência de combustíveis fósseis, reforçando a posição estratégica do Brasil em um cenário global de busca por fontes energéticas mais seguras e sustentáveis.
Outro aspecto relevante é a mudança no comportamento do crédito. Bancos, corretoras, fornecedores e investidores adotaram critérios de análise mais rigorosos após o aumento dos episódios de reestruturação financeira observados nos últimos anos. O capital continua disponível, mas a seletividade cresceu. Governança, garantias e capacidade de gestão tornaram-se diferenciais competitivos.
Ainda assim, a leitura para o Brasil permanece construtiva. Poucos países conseguem combinar expansão agrícola, disponibilidade de recursos naturais, liderança em biocombustíveis e uma matriz energética majoritariamente renovável.
A questão central para os próximos anos não será apenas produzir mais. Essa capacidade já foi demonstrada. O desafio será converter a escala produtiva, a segurança alimentar e o potencial energético em ganhos sustentáveis de competitividade e de renda.
Se conseguir avançar nessa direção, o Brasil poderá ocupar uma posição ainda mais relevante em um mundo que busca simultaneamente segurança energética, estabilidade no abastecimento e transição para uma economia de menor carbono.
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A FEX Agro é uma empresa brasileira especializada na distribuição de insumos agrícolas, oferecendo soluções em sementes, defensivos, fertilizantes e tecnologias para o campo, além de oferecer financiamento agrícola e operações de barter. Com atuação voltada ao atendimento técnico e estratégico ao produtor rural, a companhia se destaca pelo foco em inovação, no relacionamento próximo com o cliente e na expansão no mercado agro brasileiro.







