Carta aberta reúne pesquisadores de universidades brasileiras e afirma que prática é extrativista, irrelevante para a economia e ameaça à sobrevivência da espécie
Um grupo de pesquisadores brasileiros acaba de divulgar uma carta aberta nesta semana, contestando a continuidade do abate de jumentos no país e classificando a atividade como economicamente inviável, ambientalmente insustentável e juridicamente questionável. O documento solicita a revisão da decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1), que reconheceu a legalidade do abate, e defende a suspensão imediata da prática em todo o território nacional.
A manifestação é assinada por especialistas das áreas de economia aplicada, medicina veterinária, genética, saúde pública, zootecnia e biologia, vinculados a instituições como a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade Federal da Bahia (UFBA) e a Universidade Estadual Paulista (UNESP).
A carta baseia-se no estudo “Viabilidade Econômica do Abate de Jumentos na Bahia”, conduzido pelo professor da ESALQ/USP, Roberto Arruda de Souza Lima, que conclui que não há sustentabilidade econômica na criação de jumentos para fins de abate. Segundo o pesquisador e um dos signatários do documento, a atividade não possui cadeia produtiva estruturada, manejo reprodutivo planejado nem reposição de plantel, caracterizando-se como extrativista e baseada na exaustão de um estoque biológico finito.
“O modelo atual não se sustenta do ponto de vista produtivo. Trata-se de uma atividade de curto prazo, cujo colapso é previsível”, afirma Arruda, alertando sobre o risco de extinção do jumento nordestino.
Dados da FAO, do IBGE e do Agrostat indicam que 94% da população de jumentos no Brasil desapareceu entre 1996 e 2024. Para a professora da UFBA Chiara Albano de Araujo Oliveira, doutora em Nutrição de Equinos, a manutenção do abate compromete a sobrevivência da espécie e ignora suas limitações biológicas. “A baixa taxa reprodutiva e o longo período de gestação impedem qualquer escala produtiva sustentável”, destaca.
A professora da UFRB, Iaçanã Valente Ferreira Gonzaga, especialista em nutrição e produção animal, reforça que não há estrutura técnica que permita a reposição populacional compatível com o ritmo de abate. “Sem um sistema organizado de criação, a atividade leva inevitavelmente ao esgotamento dos animais disponíveis”,diz.
Além da inviabilidade produtiva, os pesquisadores ressaltam a irrelevância econômica do setor. A contribuição da indústria representa menos de 0,000003% das exportações brasileiras. Municípios com frigoríficos ativos, como Amargosa (BA), não registraram crescimento econômico significativo nem aumento consistente na arrecadação tributária ao longo do período de operação.
A bióloga e pesquisadora da USP, Patricia Tatemoto, avalia que os dados demonstram um cenário de risco ambiental sem retorno socioeconômico. “Estamos diante de uma atividade que não promove o desenvolvimento, mas compromete a biodiversidade e o patrimônio genético nacional”, pontua.
A professora titular da UFBA, Thereza Cristina Calmon de Bittencourt, doutora em Genética, alerta para a possibilidade de perda irreversível do jumento nordestino. “A extinção dessa população representaria um dano biológico e cultural permanente para o Brasil”, destaca.
O médico veterinário e doutor em Saúde Pública pelo Instituto de Saúde Coletiva (ISC) da UFBA, José Roberto Pinho de Andrade Lima, com atuação na área de Saúde Única, chama a atenção para impactos que ultrapassam a dimensão ambiental. “A fragilidade da exploração extrativista de jumentos no Brasil envolve riscos sanitários, insegurança jurídica e potenciais prejuízos à imagem do país no cenário internacional”, alega.
O médico veterinário Pierre Barnabé Escodro, da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), acrescenta que o abate de jumentos também representa risco à saúde pública. Sua equipe analisou amostras de 104 animais destinados ao abate e identificou problemas graves de saúde, como má nutrição, inflamação sistêmica e sinais de maus-tratos, conforme estudo publicado em março de 2025 na revista Animals. A falta de controle sanitário favorece a transmissão de zoonoses – doenças que podem ser transmitidas do animal para o ser humano.
A carta também aponta inconsistências entre o número de animais abatidos e o volume de peles exportadas. Segundo os pesquisadores, nos últimos dez anos, o peso médio das peles exportadas foi de 3,8 kg por unidade, abaixo do esperado tecnicamente, o que eleva o risco de evasão fiscal e de irregularidades comerciais, ampliando a insegurança jurídica da atividade.
Diante do conjunto de evidências científicas e econômicas, os especialistas defendem:
- Suspensão imediata do abate de jumentos em todo o território nacional;
- Revisão da decisão do TRF1 à luz das evidências científicas e econômicas atuais;
- Reconhecimento do jumento nordestino como patrimônio genético, cultural e ambiental;
- Formulação de políticas públicas voltadas à conservação desses animais.
Para os signatários, os dados disponíveis hoje são inequívocos: o abate de jumentos é uma atividade predatória, economicamente irrelevante e biologicamente insustentável, cujo esgotamento já está em curso.
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